domingo, 17 de novembro de 2024

A bike do João

O João me faz refletir bastante. É que ele tem perguntas super bem elaboradas. Respondê-las não é tarefa fácil. Mas ele ainda vai me fazer refletir muito - creio que pelo resto da minha vida.

Às vezes me pego viajando, buscando visualizar: e se ele tivesse nascido em outra família? Se pai e mãe fossem outros? Se a casa fosse outra? E outra fosse a escola dele? Se outros fossem os parentes e amiguinhos? Seria João mais feliz do que parece ser agora? Teria um pai que trabalhasse menos, tivesse mais tempo perto dele e prestasse mais atenção nele?

Não me censuro pela reflexão, pois sou daqueles pais que sentem bastante remorso no travesseiro ao final de toda noite. Pra mim, de um dia completo dentro de casa, a um dia repleto de atividades, sempre acho que poderia ter feito mais por meus filhos.

Este final de semana de uma bicicleta a João. Pelas dificuldades financeiras, não pude comprar uma nova, então acabei por comprar de um amiguinho dele, vizinho nosso. Ele gostou demais da bike. Mas eu fiquei a pensar se não poderia ter me esforçado mais pra ter dado a ele uma bike nova, como fiz com a irmã dele no passado. Será que outro pai teria levado ele a uma loja, pra que ele escolhesse sua bicicleta e saísse da loja feliz com o cheirinho de borracha nova saindo dos pneus? Ou sequer teria percebido o brilho nos olhos em ver outra criança andando numa bicicleta?

João tem seis aninho e não foi à praia ainda. Será que já teria sentido o gosto salgado da água do mar se tivesse outro pai? Ou será que, em outro lar, estaria mais interessado em receber carinho e atenção dos pais?

Diante de tantas questões, o que eu sei é que o tempo é cruel demais. Não perdoa quem dorme no ponto, quem não toma atitudes. Enquanto vou imaginando outros cenários possíveis para meus filhos, vou tentando fazer o melhor que posso como pai. A grana tá curta; o mundo tá pesado; as opções estão cada vez mais escassas.

Mas vale muito a pena o aperto aqui e ali nas finanças pra deixar, algumas vezes, João pulando uma ou duas horas na piscina de bolinhas do shopping. Vê-lo andar de bicicleta, a que ele mais encheu a boca pra dizer que era do amigo, mas que agora era dele”, não tem preço.

A gente sempre se imagina exercendo uma paternidade melhor do que a foi exercida com a gente. Sem medir esforços, a gente passa por cima de muita coisa, visando o bem-estar dos filhos. Mas a vida não é redondinha. Lá vai a gente se pegando fazendo - e sem querer - exatamente aquilo que nossos pais nos faziam e nos magoava bastante.

Enfim, não existe manual. É erro e tentativa. E é uma vez só. Um dia de cada vez, sem direito a segunda chance. Cabe fazer o melhor possível, com o que se tem nas mãos. O foco é fazer com que o remorso de hoje à noite seja menor que o de ontem.

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